Antes de comprar na H&M, veja o que pode existir por trás da chamada “lã responsável”
A chegada da H&M ao Brasil foi acompanhada por filas, grandes campanhas e pela promessa de oferecer moda, qualidade e sustentabilidade a preços acessíveis. A primeira loja brasileira foi inaugurada em agosto de 2025, no Shopping Iguatemi, em São Paulo, simultaneamente ao lançamento do e-commerce nacional.

Mas uma investigação divulgada pela PETA Asia traz uma pergunta que todas as pessoas deveriam fazer antes de comprar uma peça da marca: quanto sofrimento pode existir por trás de um produto anunciado como “responsável”?
As imagens registradas em uma fazenda de lã na África do Sul são difíceis de assistir. Ovelhas aparecem sendo chutadas, agredidas, imobilizadas violentamente e arrastadas pelas pernas. Durante a retirada da lã, trabalhadores cortam a pele dos animais, deixando ferimentos expostos e sangramento.
Em uma das cenas descritas pela investigação, um carneiro tem o pescoço pressionado pelo joelho de um trabalhador, com a cabeça contra o chão. Um cordeiro morto também foi encontrado no local. Outro apresentava uma ferida infestada por larvas.
Não se trata apenas de um vídeo desconfortável. Trata-se de animais sentindo medo, dor e desespero para que uma matéria-prima seja transformada em casacos, suéteres e acessórios.
Aviso: a investigação contém imagens fortes de maus-tratos contra animais.
Qual é a relação entre a investigação e a H&M?
A fazenda investigada pela PETA Asia era certificada pelos padrões NATIVA e Responsible Wool Standard, apresentados ao mercado como mecanismos de rastreabilidade e bem-estar animal.
Segundo a PETA, essa fazenda comercializa sua lã por intermédio de um fornecedor que também abastece o H&M Group. A própria H&M declarou que pretendia obter toda a sua lã virgem e outros pelos de origem animal de fazendas certificadas por padrões considerados confiáveis, incluindo NATIVA e Responsible Wool Standard.
É importante fazer uma distinção: a investigação não comprova que cada peça de lã vendida pela H&M — ou especificamente nas lojas brasileiras — tenha sido produzida com material proveniente da fazenda filmada.
O que ela revela é igualmente grave: uma fazenda inserida na mesma cadeia certificada utilizada para abastecer o grupo foi registrada praticando atos incompatíveis com qualquer ideia razoável de bem-estar animal.
Se uma certificação permite que uma operação como essa seja apresentada ao consumidor como “responsável”, o que exatamente esse selo está garantindo?
Quando “responsável” vira apenas uma palavra na etiqueta
O Responsible Wool Standard afirma avaliar fazendas com base em critérios relacionados ao bem-estar das ovelhas, à gestão da terra e às condições sociais. A NATIVA também apresenta sua lã como responsável e rastreável.
No entanto, as imagens divulgadas pela PETA mostram que um selo, sozinho, não impede a violência.
Essa contradição deveria acender um alerta sobre o uso de expressões como “lã ética”, “origem responsável” e “bem-estar certificado”. Para quem compra, essas palavras transmitem segurança. Fazem parecer que os animais foram tratados com respeito e que uma autoridade independente verificou todo o processo.
A realidade filmada mostra outra coisa.
Segundo a PETA, trabalhadores da fazenda chutaram ovelhas na cabeça e no corpo, bateram nos animais com equipamentos de tosquia e um pedaço de madeira, arrastaram cordeiros pelas pernas e cortaram a pele das ovelhas durante a retirada apressada da lã. Uma delas foi vista mancando depois do procedimento.
A PETA afirma já ter investigado mais de 150 operações ligadas à indústria da lã em quatro continentes, encontrando agressões e ferimentos mesmo em cadeias apresentadas como éticas ou responsáveis.
Portanto, o problema não pode ser tratado apenas como o comportamento isolado de alguns trabalhadores. É necessário questionar um modelo de produção no qual velocidade, volume e rentabilidade podem valer mais do que o bem-estar dos animais.
A H&M pode abandonar a lã
A H&M não pode alegar que faltam alternativas.
Em 2021, a própria marca colaborou com a PETA na coleção Co-exist Story, que apresentou materiais sem origem animal, incluindo uma alternativa ao couro produzida com uvas, enchimento derivado de flores silvestres e nylon regenerado.
Em 2024, depois de uma campanha da PETA, o grupo assumiu o compromisso de deixar de utilizar novas penas e plumas em seus produtos.
Esses exemplos demonstram que a H&M possui recursos, alcance e capacidade de inovação para ampliar o uso de materiais sem origem animal. O que falta é assumir o mesmo compromisso em relação à lã.
Grandes empresas possuem recursos financeiros, tecnologia, influência e poder de escala mais do que suficientes para transformar suas cadeias produtivas. Alternativas não faltam. Já existem materiais de origem vegetal, fibras recicladas e novas tecnologias capazes de substituir componentes de origem animal sem abrir mão de design, conforto ou qualidade.
Se consumidores conseguem rever hábitos e fazer escolhas mais conscientes dentro de suas possibilidades, empresas globais também precisam fazer a sua parte — e em uma escala muito maior.
Enquanto isso não acontecer, o consumidor tem o direito de retirar seu apoio.
Por que não comprar na H&M neste momento?
Não comprar é uma forma legítima de protesto.
Quando uma empresa chega a um novo mercado, cada venda ajuda a validar sua estratégia de expansão. A H&M iniciou suas operações no Brasil com loja física e comércio eletrônico e segue aumentando sua presença no país.
É justamente agora que o posicionamento do público brasileiro pode fazer diferença.
A decisão de não comprar na H&M até que a empresa abandone a lã envia uma mensagem clara: não queremos moda construída sobre sofrimento animal. Não aceitamos que certificações sejam usadas para tranquilizar consumidores quando investigações encontram violência dentro das cadeias certificadas. E não vamos tratar a crueldade como um detalhe invisível da produção.
Isso não significa jogar fora todas as roupas da marca que você já possui. Descartar uma peça ainda utilizável gera mais desperdício. O caminho mais coerente é cuidar do que já existe, prolongar sua vida útil, consertar, reutilizar, trocar ou doar — e interromper novas compras.
Cada escolha de consumo também é uma escolha de mundo
Ter consciência sobre o que compramos não significa buscar uma perfeição impossível. Significa compreender que cada escolha financia uma forma de produzir e sinaliza às empresas quais práticas estamos dispostos a aceitar.
Uma pessoa que deixa de comprar uma peça pode parecer pequena diante de uma indústria global. Mas, quando essa decisão é compartilhada por milhares ou milhões de consumidores, ela muda tendências, afeta vendas, pressiona lideranças e acelera transformações.
Cada pequena atitude conta em escala global. Ler uma etiqueta, questionar a origem de um material, prolongar a vida útil de uma roupa, escolher uma alternativa sem origem animal ou deixar de comprar de uma empresa são formas concretas de participar da construção de um mundo mais consciente, pacífico e harmonioso.
A responsabilidade, porém, não pode ser colocada apenas sobre o consumidor.
Empresas globais exercem um impacto muito maior e precisam assumir responsabilidades proporcionais ao seu tamanho. Elas têm equipes especializadas, acesso a fornecedores, capacidade de pesquisa, poder de negociação e dinheiro para investir em alternativas éticas.
Não se trata de esperar por uma solução futura enquanto animais continuam sofrendo. As soluções já existem. Trata-se de decidir utilizá-las.
O consumo consciente não nasce da culpa, mas da responsabilidade. E viver em paz e harmonia exige coerência entre os valores que defendemos e aquilo que escolhemos apoiar com o nosso dinheiro.
O que os consumidores brasileiros podem fazer?
Não compre novas peças da H&M
Suspenda suas compras enquanto a marca continuar comercializando lã e não oferecer respostas transparentes sobre sua cadeia de fornecimento.
Leia a composição das roupas
Procure termos como lã, wool, merino, cashmere, mohair, angorá, alpaca, couro, seda, penas e plumas. Todos indicam materiais de origem animal.
Em composições mistas, a lã pode aparecer em porcentagens pequenas e passar despercebida. Verifique toda a etiqueta, não apenas o material destacado na publicidade.
Escolha alternativas sem origem animal
Algodão, linho, cânhamo, liocel, fibras recicladas e outros materiais podem substituir componentes de origem animal. Nenhuma alternativa é automaticamente sustentável, por isso também vale observar durabilidade, origem, qualidade e impacto ambiental.
Questione a marca publicamente
Pergunte à H&M Brasil:
A empresa continuará vendendo lã no país?
Como verifica, além das certificações, as condições reais das fazendas?
Que providências foram tomadas após a divulgação da investigação?
A H&M assumirá um prazo para eliminar a lã e outros materiais de origem animal?
Marcas monitoram comentários, mensagens, reclamações e mudanças no comportamento de compra. O silêncio favorece a continuidade. A pressão pública exige respostas.
Apoie a campanha da PETA
A página da investigação permite enviar uma mensagem à H&M solicitando o fim da comercialização de lã. Compartilhar informações verificadas também ajuda outras pessoas a entender o que pode estar escondido atrás de uma etiqueta.
Moda não deveria depender de violência
Não precisamos assistir passivamente às imagens de um animal sendo chutado, cortado ou arrastado e aceitar que isso faz parte da produção de uma roupa.
Também não precisamos acreditar que palavras bonitas em uma etiqueta são prova suficiente de responsabilidade.
A H&M escolheu entrar no mercado brasileiro e deseja construir uma relação duradoura com os consumidores do país. Essa relação precisa incluir transparência, responsabilidade e disposição para mudar.
Até que a empresa abandone a lã e demonstre que suas decisões são compatíveis com o discurso de sustentabilidade que apresenta ao público, existe uma atitude simples e poderosa ao alcance de cada consumidor:
Não compre na H&M.
Não como um gesto vazio de indignação, mas como uma escolha consciente. Como pressão por mudanças concretas. Como uma mensagem de que preço, tendência e conveniência não estão acima da vida e do sofrimento de um animal.
Moda pode ser criativa, bonita e acessível sem violência. Cabe às empresas transformar os recursos que possuem em escolhas mais conscientes. E cabe a nós deixar claro, por meio de nossas decisões, qual futuro desejamos apoiar.
Cada pequena atitude conta. Quando milhões de pessoas mudam a maneira como consomem, uma decisão individual se transforma em movimento global.
Assista à investigação e participe da campanha: PETA — What Happens to Sheep for Wool
Fontes: investigação da PETA Asia, campanha para a H&M abandonar a lã, Responsible Wool Standard e comunicado oficial sobre a chegada da H&M ao Brasil.
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