O trânsito e a paixão

by

Sobre carros e rodas – crônicas de um motorista entusiasmado

São Paulo, sexta-feira, 18h30, Corredor Norte-Sul, sentido Sul. Nem precisa dizer que estava trânsito, precisa? Poderia ter sido em qualquer outra via da cidade, destas que são rota de fuga do trabalho, direto para casa ou para o happy hour. Fato é que neste horário, anda-se pouco.

O mar de luzes vermelhas das lanternas dos automóveis enfileirados na via iluminam o início do breu que se anuncia, próximo do nascer da lua, em um momento que o sol já se pôs, mas ainda há claridade. A noite vai ser escura e fria.

A uma velocidade de poucos metros por hora, este caos organizado em uma única direção nos permite ouvir, ver, pensar e xeretar muitas coisas. Foi neste momento que uma cena chamou minha atenção, ao perceber que a fila onde estava andava menos do que as demais. A boa e velha Lei de Murphy.

No carro a frente, um jovem casal (pelo menos acho que era), sempre muito próximos um do outro, cabeça a cabeça… se beijavam incansavelmente a cada parada, a cada pequeno momento de velocidade zero, nem que fosse por um segundo. O problema é que muitas vezes este segundo se prolongava por outros cinco, oito, dez, vinte segundos, e a fila parada, inclusive eu.

Fechei os olhos, tentei não ver, não reparar, mas os ouvidos não deixavam, pois enquanto eu ficava lá, parado, os carros ao meu lado prosseguiam, devagar, mas iam, enquanto eu ficava lá, parado.

De repente, andava. Mas depois, voltava a parar. E mais um beijo. E, enquanto isso, outros carros entravam na frente deles, e na pista onde estávamos, a fila ficava mais longa. Eles, claro, nem se importavam. Acho até que riam da situação. Por que não vão a algum lugar para namorar? Talvez estavam a caminho, quem sabe? Mas justo à minha frente? Por que à minha frente?

Foi quando me lembrei de quando era uma criança, assim como eles, que deviam ter uns 20, 25 anos… eu fazia igual… era bom, era o paraíso, mas não havia tanto trânsito… não beijava tanto… senti certa inveja…

Estava cansado, era sexta-feira, queria chegar logo em casa, tirar a gravata, o paletó, os sapatos, abrir a latinha de cerveja, jogar o corpo no sofá e ficar a esmo… mas estava lá, parado, no trânsito…

E assim fomos, por quase uma hora. Eu sempre atrás deles, até que mudaram de pista e o transtorno passou para outro. Passei, olhei com cara de bravo, mas quem disse que deram bola para mim… estavam se beijando, claro.

Pensei em buzinar, mas para que? Deixa eles se divertirem. Pelo menos alguém consegue se divertir neste trânsito louco da metrópole desvairada onde a pressa impera sobre tudo, menos sobre a paixão.