Vinho & Vida: Enterrando mitos

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Já é praxe dessa coluna incentivar a pratica de degustações às cegas

Vinhedo Villero, berço de um dos mais espetaculares Barolo

Mais uma vez tive a oportunidade de coordenar uma especial degustação às cegas. Nessa ocasião, pré-carnavalesca, foram degustados 4 grandes Barolo de safras especialíssimas. Como já falamos aqui no PPOW, o Barolo é um vinho produzido no norte da Itália, na região do Piemonte, a partir de 100% da casta Nebbiolo.

Cacho maduro de Nebbiolo

Ampelografistas, botânicos especialistas em videiras e parreiras, acreditam que a Nebbiolo é uma uva vinífera autóctone do próprio Piemonte, contudo evidências sugerem que a casta em questão pode ter origem também na Lombardia, portanto não há exatidão com relação a sua origem. A primeira citação explícita da Nebbiolo na região do Piemonte data do ano de 1.268.

Barolo: o Melhor da Nebbiolo      

Esse tinto é conhecido como o Vinho do Rei ou o Rei dos Vinhos, eram os Barolo os vinhos preferidos do Rei Vittorio Emanuele II, o primeiro Rei da Itália após a unificação do País em 1861.

É no Piemonte, ao lado da Borgonha, mais especificamente nos arredores de duas pequenas cidades, Barolo e Barbaresco, que estão um dos mais expressivos números de vinhos de vinhedo único no planeta. É de se deleitar poder apreciar o mapa dessas duas pequenas regiões produtoras de vinhos e notar a tamanha diversidade entre vinhos produzidos pela excepcional Casta Nebbiolo. Os Barolo que são os vinhos mais ricos e profundos produzidos na Itália são divididos em 5 grandes áreas: Barolo, Castiglione Falleto, Monforte D’Alba, La Morra eSerralunga D’Alba.

Vista aérea da Azienda Bricco Rocche

De Barolo vêm inúmeros vinhos de vinhedos únicos, tais como Brunate e Cannubi. De Castiglione Falleto, os incríveis Bric Del Fiasc, Monprivato, Rocche e Villero, dentre outros. Monforte D’Alba apresenta os fascinantes Bussia, Gran Bussia, Santo Stefano di Perno e Ginestra. La Morra tem os presentes Cerequio, Marcenasco e Brunate (vinha que tem parcelas tanto em La Morra quanto em Barolo) e de Serralunga D’Alba vem os expressivos Francia, Lazzarito, Monfortino e Ornato.

O Grande Tasting

4 Grandes Barolos de Grandes Safras

Nossa estratégia era comparar além dos vinhos e seus estilos, suas safras. O Barolo é um vinho que outrora precisava de muitos anos para ser apreciado. Cerca de 20 anos atrás uma ala modernista de produtores de Barolo decidiu produzir vinhos mais acessíveis quando jovens. Escolhemos a dedo 4 Barolo dentre os melhores e das melhores safras dos últimos anos. Por falar em safra a região do Piemonte vem sendo abençoada, pois tivemos de 1995 a 2001 sete excelentes safras, interrompidos pelo ano de 2002, que foi desastroso com uma chuva de granizo que devastou muitos vinhedos. Em 2003 tivemos uma boa safra, com vinhos mais maduros que o normal. De 2004 até 2010 tivemos mais 7 grandes safras.

Os Barolo escolhidos foram:

As rolhas das preciosidades degustadas

Paolo Scavino Bric del Fiasc 1997 – representando Castiglione Falleto

Ceretto Bricco Rocche Brunate 2000 – representando La Morra

Giacomo Conterno Monfortino 2001- representando Serralunga D’Alba

Vietti Villero Riserva 2001 – representando Castiglione Falleto

O mítico, caríssimo e raro Giocamo Conterno Barolo Monfortino 2001

A ordem dos vinhos foi meticulosamente escolhida para não dar pistas aos sete enófilos que se sentaram para degustar esses grandes vinhos (eu era o 8º da mesa, sem direito a voto).

A amostra 1 estava firme e alegre. Um tinto vigoroso, cheio de vida e com boa evolução. A maioria dos presentes não concluiu que esse era o mais velho vinho da mesa. Na taça 2 tínhamos um vinho sóbrio, diferente dos demais. Faltava-lhe alegria e se mostrava muito duro. Claramente foi melhorando com o passar do tempo. O vinho da taça 3 era pura fruta madura entrelaçada com uma madeira presente. As nuances florais e minerais complementavam o delicioso buquê. O conjunto aromático estava inebriante. Um tinto completo e repleto de vida. Em boca foi confirmada a potência e a força, aliada a uma elegância que um bom Barolo tem que apresentar.  Na taça 4 estava talvez o mais maduro e pronto de todos os vinhos à mesa. Um tinto moderno com muita força e presença.

Detalhe do rótuolo do Paolo Scavino Barolo Bric del Fiasc 1997

 

Resultado Final (incluindo os 7 degustadores, sem contar meu voto)

Vietti Villero Riserva 2001 – representando Castiglione Falleto (amostra 3)

5 primeiros e 2 segundos lugares – Grande campeão e Medalha de Ouro

O Campeão Vietti Barolo Riserva 2001

Cereto Bricco Rocche Brunate 2000 – representando La Morra (amostra 4)

2 primeiros, 3 segundos lugares e um terceiro lugar– Medalha de Prata

Paolo Scavino Bric del Fiasc 1997 – representando Castiglione Falleto (amostra 1)

1 segundo lugar e 6 terceiros lugares – Medalha de Bronze

Giacomo Conterno Monfortino 2001- representando Serralunga D’Alba (amostra 2)

1 segundo lugar

Conclusões:

Todos os vinhos estavam excelentes, sem nenhum receber uma pontuação de seu colunista menor que 92 pontos, ou seja, a barra de nossa degustação estava bem alta.

O Villero Riserva 2001 produzido pela família Vietti é um dos mais perfumados e deliciosos Barolo já degustados. Não foi a toa que se destacou dos outros com um resultado quase unânime. A degustação alcançou resultados tão especiais, que o decano de nossa confraria abriu outro Vietti Villero, o 1997, para comparamos com o grande campeão. Estava excelente, mas não tinha a mesma força e principalmente a mesma alegria que o irmão mais novo. O Vietti Villero Riserva 2001 é uma obra de arte. Um tinto colecionável.

O Ceretto Bricco Rocche Brunate 2000 é maravilhoso e suculento. Vale ressaltar que esse vinho não é o TOP da casa. O top é o Ceretto Bricco Rocche Bricco Rocche. Imagine se o top de Ceretto estivesse na degustação…..

O Paolo Scavino Bric del Fiasc 1997 teve uma excelente performance e mostrou que ainda tem vida pela frente. Sempre muito apetitoso e suculento. Um grande e moderno Barolo.

O vinho mais caro da Itália é o Giacomo Conterno Monfortino. Um vinho raríssimo, quase impossível de achar. Um tinto que brilha em leilões mundo afora. Tem um estilo muito clássico, um Barolo tradicional produzido a partir de longa maceração. Um tinto para evoluir em garrafa por muitos anos. Pessoalmente para mim é um mito, que mesmo evoluído (já provei algumas safras com mais de 20 anos) não brilha, apesar de ser um excelente vinho. Falta-lhe alegria, força e charme. Nessa degustação, esse 2001 não foi diferente e o mais incrível foi que não agradou quase ninguém (só teve um voto de 2º lugar dentre os 7 votantes, sendo o quarto e último colocado dos outros 6 votantes).

Com isso enterramos um mito chamado Barolo Monfortino, que é um grande vinho, mas que não é toda essa “Ferrari” que apregoam ser. Que venham mais degustações às cegas para podermos ter bastante assunto para debater. gustibus non disputandum est  (gosto não se discute). Saúde!

  • Pedro HN

    Achei esta degustação muito pouco criteriosa. Conheço todos os vinhos. O Vietti Villero é um vinho grandioso. Porém, os outros são apenas excelentes vinhos que habitam o lugar comum. O Monfortino é uma exceção em todos os sentidos. Precisa descansar ao menos 2 horas para abrir seu buque. Sua acidez é vívida e energizante, Seu final é extremamente longo, doce e intenso. É um vinho monstruoso que requer paciencia e cuidado, pois deve ser guardado por pelo menos 20 anos. Muitas camadas de aromas ainda estão tímidas e oprimidas pelos aromas primários. Caso seja possível encontrar uma garrafa em condições perfeitas, (apropriadamente envelhecida com rolha e nível perfeitos, este terá uma verdadeira experiência. 1961, 1971 e 1990 foram as safras antigas que degustei. Ainda esperarei ao menos 10 anos para tomar meu Monfortino 1990. Espero ainda poder apreciar minhas últimas garrafas (2002 e 2004). Sou um grande apreciador dos Giacomos Cornternos, porém, é melhor tomar um Cascina Francia ou um Barolo moderno, caso não tenha tempo para esperar..,

  • Luiz

    gosto não se discute mas o Monfortino é o melhor vinho que experimentei na minha vida. Principalmente o 1971! Concordo com o comentário do Pedro, mais uns 30 anos e o 2001 vai ser muito bom…