Sonhos de um enófilo, parte 5

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Os clássicos tintos do Norte e do Sul do Vale do Rhône são verdadeiros sonhos

Colheita sendo realizada no Vinhedo La Turque de E. Guigal

Os maravilhosos Côte Rotie e Hermitage (ou Ermitage) do Norte e os Chateaunuef du Pape do sul do Vale do Rio Rhône ficaram fora de nosso primeiro capitulo dos sonhos de um enófilo. Naquele momento dedicamos a matéria somente aos vinhos franceses de 3 regiões, que foram Bordeaux e Borgonha, de onde provem os mais sonhados e também os mais caros vinhos do mundo e, por último, a Champagne, região que produz o mais glamoroso vinho dentre todos.

Deixamos de lado por falta de espaço na matéria esses tintos produzidos às margens do rio Ródano, que podem estar equiparados, muitas vezes, em qualidade, aos melhores e mais sonhados vinhos de todo planeta. Nos redimimos e abaixo apresentamos os mais sonhados vinhos dessa maravilhosa região que é o Vale do Rhône.

Norte do Rhone, onde a casta Syrah reina absoluta.

O maravilhoso Chateau D'Ampuis da Família Guigal à beira do Rhone

Entre as cidades de Vienne ,ao norte, e Valence, um pouco mais ao sul nas margens do Rio Rhône, temos entre elas, muitos e muitos hectares de Syrah plantados. Quase ao lado de Vienne temos o vilarejo de Ampuis e a Appellation D’origine Contrôlée (AOC) de Côte Rotie. O vinho leva o nome da AOC. Esse tinto, robusto, inebriante, firme e muito rico, é produzido a partir da uva Syrah, sempre com um toquezinho da casta branca Viognier.

Na maioria dos casos a quantidade dessa perfumada casta fica entre 1% e 3% do blend. Nessa pequena região produtora temos um produtor que é destaque absoluto. Trata-se da Domaine E. Guigal que produz os mais reluzentes Syrah de vinhedos únicos do mundo. A família Guigal ainda produz tintos e brancos por toda a região do Rhône, chegando ao sul da região também. Os destaques da casa, hoje comandada pelo filho, Marcel, e pelo neto, Philippe, de Etienne Guigal, que foi o fundador da potencia na produção de grandes vinhos, são o Trio LaLaLa, como carinhosamente são chamados os tintos Côte Rotie La Mouline, Côte Rotie La Landonne e Côte Rotie La Turque.

Esses tintos ,sem duvida, superam em algumas safras especiais, as vezes “de longe”, os Premieur Grand Cru Classé de Bordeaux. Foram muitos LaLaLa’s degustados tanto em solo brasileiro quanto no próprio Chateau D’Ampuis, onde se localiza a sede da família Guigal. Os mais inesquecíveis foram os 3 LaLaLa’s da safra 1999, uma safra abençoada que produziu vinhos perto da perfeição na AOC de Côte Rotie.  Esses três tintos podem ser classificados como “Sonhos dos sonhos”.

Os mais prestigiados tintos do Vale do Rhone, o Trio LaLala 1999 do Produtor E. Guigal

Quando de uma grande festa em Ampuis, me lembro bem do La Turque 1989 e do La Mouline 1985. Duas verdadeiras obras primas, que me lembro muito bem. Nunca provei um LaLaLa que não o avaliasse com menos de 97 pontos.

Ainda no norte da região, cerca de 50 quilômetros aos sul de Côte Rotie, temos a AOC Hermitage, nas cercanias da cidade de Tain L’Hermitage. Dessa AOC temos vinhos brilhantes que são verdadeiros sonhos. Vale ressaltar que no inicio do século do XX esses eram os únicos vinhos que rivalizavam com os Grandes Tintos de Bordeaux, algumas vezes os superando em preços.

Nessa região temos três fenomenais produtores. O primeiro ,e produtor em larga escala, é o genial Michel Chapoutier, o segundo um médio-grande produtor é a casa Paul Jaboulet Ainé e por último o pequeno produtor Jean Louis Chave. Da casa Chapoutier temos uma enorme gama de grandíssimos vinhos, mas três são dignos de muitos e muitos sonhos.

São eles os Ermitage (sem o H mesmo) Le Pavillon, Ermitage Le Méal e Ermitage L’Ermite. Tanto o Pavillon quanto o Le Méal 1996 são vinhos de sonhos e que nunca sairão de minha cabeça. Esse Le Méal 1996 foi degustado em 2011 ao lado dos melhores vinhos do mundo e naquele dia superou todos, provando a força da uva Syrah. Dos L’Ermite só um provado, o 2003, sensacional, mas talvez por sua juventude não tinha a finesse e a elegância de seus irmãos mais velhos.

 

Lado a lado o Hermitage e o Ermitage 1996, duas obras primas liquidas

 

Vale destacar que temos grandes Côte Rotie também de Michel Chapoutier. O Hermitage La Chapelle ,esse sim com H, da casa Jaboulet é um vinho que tem grande carga histórica. O 1961 foi considerado pela renomada revista americana Wine Spectator, como um dos 12 melhores vinhos do século passado. Um sonho que ainda vou realizar.

O La Chapelle 1996 foi um dos mais especiais vinhos a base da Syrah que provei em minha vida. Um especial sonho que ainda vou realizar mais algumas vezes, pois tenho algumas garrafas em minha adega pessoal. O Ermitage Cuvée Cathelin de Jean Louis Chave é além de um sonho, hoje, o vinho mais caro de todo o Rhone, superando os LaLaLa’s de Guigal. Somente o degustei uma vez. O 1998 anos atrás. Um vinho sensacional, que mostra força e elegância, em um equilíbrio perfeito.

Garrafa do caríssimo e sonhado Hermitage Cuvée Cathelin 1998

Sul do Rhone, a “casa” da extraordinária casta Grenache

Vista do Vilarejo de Chateauneuf du Pape com as ruínas do Castelo ao fundo

Apesar de ser a casta predominante na região, não é somente Grenache que brilha no Sul do Rhone. Além dessa “deliciosa” casta temos na região boa quantidade de Syrah, um belo número de hectares da especial Mourvèdre e por último, vasta plantação de castas como Cinsault, Counoise e Terre Noir, dentre outras. Nessa grande região onde temos a lindíssima cidade de Avignon como referencia, temos diversas AOC’s, mas uma em especial produz vinhos de classe mundial.

Estamos falando da AOC Chateauneuf Du Pape. Nessa AOC são elaborados tintos que são sonhos de muitos enófilos. São inúmeros os produtores que elaboram grandes tintos, mas vamos destacar somente 5. São eles: Chateau de Beaucastel, Chateau Rayas, Clos des Papes, Domaine de Beaurenard e Domaine de la Mordorée.

Dois fenomenais e longevos Chateauneuf du Pape

Dos Chateaunuef Beaucastel degustados tenho uma boa série de sonhos realizados, pois também visitei essa Domaine. Na ocasião da visita foram nos oferecidos 16 vinhos, sendo 9 safras do Chateauneuf Du Pape tinto. Essa visita ocorreu em 2001 e não consigo esquecer o 1989 (último a ser servido no longo tasting), o 1990, o 1995, e o 1998. Todos vinhos dos sonhos com destaque para o primeiro e para o último. Do novo século tive o prazer de degustar todos desde 2001 até o recém lançado, aqui no Brasil, o 2007.

Todos de excelentes a excepcionais com destaque para o 2001, 2003, 2004, 2005 e 2007, sendo esses dois últimos do nível dos fabulosos 1989 e 1998. O vinho top da casa o Hommage a Perrin é caro demais e não vale a diferença se comparado com o Chateauneuf normal da casa. Ainda em 2001 quando da visita à região degustei ,no Restaurante La Mirande , do Hotel de mesmo nome, em Avignon, o inesquecível Chateau Rayas 1995. Um sonho espetacular que penso sempre em fazer um retasting desse vinho produzido a partir de 100% Grenache.

Rótulo do inesquecível Chateau Rayas Chateauneuf du Pape 1995

Dos Chateauneuf Clos de Papes 3 foram degustados e o destaque é o 2005, um vinho sublime, charmoso e com muitos anos pela frente. Um dos mais colecionáveis vinhos da região. Da Domaine Beaurenard, seu vinho TOP, o Chateauneuf Du Pape Boisrenard, foram 2 degustados, o 2003 e o 2004, ambos dos sonhos, com um destaque para o primeiro, que em um blind tasting em 2010 com diversos Chateauneuf foi o grande campeão.

Por último temos a Domaine de la Mordorée com seu incrível Chateauneuf Du Pape La Reine des Bois. Foram provadas algumas safras dessa jóia liquida e os melhores e sonhos realizados são o 2001 e o 2005.

 

Ah! 2011 chega ao fim e aproveitamos o ensejo para brindar com nossos enófilos e desejar que 2012 seja um ano repleto de realizações, com saúde de sobra e muitos sonhos de enófilos para serem realizados…..Tim Tim!!!! Feliz Ano Novo!!!!